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O Sertão, os Sertões: 50 anos de Deus e o Diabo na Terra do Sol

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NINJA | https://ninja.oximity.com

Vir a ser-tão

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Fotos: Mídia NINJA

Um mergulho no passado e Brasil Profundo dos sertões de Glauber 50 anos depois. O chão seco, os galhos retorcidos, os caprinos e o povo com feições das paisagens formam o cenário do ensaio fotográfico…

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Euclides da Cunha, no sertão baiano, é ponto de partida para a caminhada poética por Canudos e Monte Santo, santuários de Deus e o Diabo na Terra do Sol e percurso de inspiração da (re)significações dos territórios pelo não-sertanejo e/ou sertão retratado por Glauber Rocha.

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Deus e o Diabo mostra a indignação na terra esquecida, nos lembra que a pobreza sertaneja nunca foi ‘natural’. Para o povo massacrado, toda rebeldia ou fascismo será embrião de uma ira revolucionária. Glauber ecoa, permanece. Meio século depois reverberando pelos Brasis.

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Parto. Mais uma trip, me distancio do chão. Vou em busca de encontros inesperados, vôo buscando meus anti-heróis preferidos, das históricas resistências estetico-politicas, dos personagens reais da nossa ficção, daqueles que se foram por mirar no futuro.

Parto normal, sem dor, cheio de expectativas, cheio de clicks a fazer, cheio de historias a ouvir. Me jogo na Terra do Sol, no antigo pedaço de novo mundo. Deus, o diabo e o ninja que em mim habitam visitarão a terra do filme, 50 anos depois. Vamos encontrar nosso Glauber que não morre, que não esquecemos.

Vôo pra 64, em busca da terra pós-morte, de lá, mandaremos noticias de Corisco, de Manoel, Rosa, Sebastião, do Coronel, de Antônio das Mortes…

Foto: Mídia NINJA

Foto: Mídia NINJA

A TERRA DO SOL E O SAL DA TERRA

“Tu vens, tu vens, eu já estou no meu lugar” era o som que ecoava do buteco na esquina da praça central de Euclides da Cunha, no sertão da Bahia. Rodeada por ruas de paralelepípedos, havia no meio da pracinha uma fonte iluminada por luzes coloridas, de baixo pra cima, criando jorrões vermelhos e amarelos, ao lado da fonte um pequeno parque de diversões para crianças, forrado de grama sintética, com balanços e escorregadores de madeira envernizada e uma cama elástica colorida. Ali, presencia-se um encontro, do velho e do novo, do Sertão de Euclides com as obras do PAC que trazem o padrão-modernidade.

Euclides da Cunha – a cidade – é nosso ponto de partida e de conexão, para Canudos e Monte Santo, cidades cenários, santuários de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Euclides – o autor – inspiração e chave para dimensionar o sertão visto pelo não-sertanejo e/ou o sertão retratado por Glauber Rocha.

Foto: Mídia NINJA

Foto: Mídia NINJA

A partir – e ao mesmo tempo em busca – da compreensão da terra, da paisagem e do homem, Euclides, que vai ao sertão para cobrir as investidas militares da recém República brasileira contra Canudos para o jornal Estadão, se depara com a complexidade da vida simplista sertaneja, com os anseios de um outro formato social que ganha vida no então arraial de Belo Monte*, liderado por Antonio Conselheiro, onde chegaram a residir dezenas de milhares de pessoas e, por isso, fazia estremecer o Estado. O que poderia ser considerado um jornalista coxinha, torna-se então o escritor de uma das principais obras da cultura brasileira.

Se a frase diz “a liberdade entrou em Canudos sem pedir licença”, podemos crer que Lampião e os cangaceiros, dezenas de décadas depois do extermínio do arraial, a tomaram de volta com unhas e dentes. Como dizia Glauber, “a luta deve ser estética, econômica e política”, tal qual o cangaço, que fez emergir um life style ainda não visto naquele sertão outrora descrito por Euclides. A vida nômade, os trajes de couro, os adornos de ouro, o desapego a propriedades, a coletividade do bando e, principalmente, a não inserção no modus operandi, aproxima Virgulino Lampião de Antônio Conselheiro, ambos tiveram o mesmo fim, a morte na guerra, o degolamento e, porque não, o mesmo fim, ainda que simbólico, de Glauber, marginalizado, censurado, exilado, mal compreendido.

*Os Conselheiristas chamavam Canudos de Belo Monte e consideravam um desrespeito à comunidade entitulá-la de Canudos, nomenclatura utilizada pelo coronéis da época.

Foto: Mídia NINJA

Foto: Mídia NINJA

50 ANOS, O PASSADO VIVO

“ O problema do sertão não é a seca, é a cerca”, a frase repetida ainda hoje pelos sertanejos deixa claro que a pobreza sertaneja nunca foi “natural”. O Coronelismo e os grandes proprietários de terras sempre foram obstáculos para uma reforma agrária e uma economia mais justa.

Glauber Rocha lança Deus e o Diabo na Terra do Sol no mesmo ano de 1964 em que João Goulart faz o discurso na Central do Brasil propondo as reformas de base e a reforma agrária, um dos estopins da reação conservadora que levaria ao Golpe Militar de 64 e que começa com as Marchas da Familia Com Deus Pela Liberdade denunciando a “ameaça comunista”.

Uma só linha de sangue pode ser traçada desde o massacre dos sertanejos pelo exército brasileiro em Canudos, em 1896, acusados de insurgentes e fanáticos religiosos até o Golpe Militar de 1964 e o genocídio da juventude das periferias e favelas do Brasil pela policia. O mesmo Estado que mata e um povo que resiste e cria e transforma as forças mais hostis (violência e pobreza) em resitência e potência.

Glauber em Deus e o Diabo mostra o mundo de revolta nessa terra esquecida. Os Sertões, clássico de Euclides da Cunha, ainda é, hoje, um dos mais fascinantes e aterradores tratados sobre a gênese da violência e da intolerância na cultura brasileira. Destruição que teve um preço altíssimo para vencedores e vencidos, resultando num verdadeiro “fracasso” do projeto positivista brasileiro de levar a ferro e fogo a República para os sertões.

Glauber no seu filme mostra que toda violência contra o homem, seja do coronelismo, do Estado ou das religiões, produz uma resitência e revolta: cangaçeiros ontem ou black blocs hoje nas manifestações do Brasil de 2014.

Para o povo massacrado, toda rebeldia ou fascismo será o embrião de uma ira revolucionária. Para Glauber, a violência não é um simples sintoma, é um desejo de transformação. No Brasil de 2014, o passado está vivo e ouvimos o grito de Glauber. “Está contada a nossa história, verdade ou imaginação, espero que o senhor tenha tirado uma lição, assim mal dividido esse mundo anda errado, a terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo”

Foto: Mídia NINJA

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CANUDOS

O Arraial Belo Monte foi instalado na região de Canudos – sertão Baiano – em 1893, liderado por Antonio Conselheiro, apresentava um foco de resistência a então instalada republica do Brasil, presidida por Marechal Deodoro da Fonseca Perna Fina Bunda Seca. Entitulando o novo modelo de gerenciamento do país de “ré-pública”, Conselheiro mobilizou milhares de pessoas para habitar um território livre, sem a cobrança de impostos, e onde o coletivismo já despontava como alternativa de vida, pelos registros da época, acredita-se que habitavam Belo Monte entre 15 e 25 mil pessoas.

Foto: Mídia NINJA

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A existência do arraial por si só já representava uma afronta ao estado brasileiro e o grande número de adesões fez com que a resposta do estado fosse rápida. 3 expedições militares foram realizadas, até que em 5 de Outubro de 1897, Belo Monte fosse completamente dizimada pelo exercito, que havia reunido soldados de diversas regiões do país para lutar contra os moradores do arraial. O acampamento dos militares ficava no topo de um morro conhecido por Alto da Favela (devido a grande presença de um arbusto chamado Faveleiro no topo de um dos montes próximo a Canudos). Os soldados sobreviventes da investida militar foram deslocados para o Rio de Janeiro e passaram a habitar o Morro da Providência, então conhecido como morro da Favella. A coincidência do nome guarda uma relação direta com a chegada dos ex- combatentes, e é ora atribuída à presença do mesmo arbusto típico da região de Canudos naquela região central do Rio de Janeiro, ora à própria atitude de resistência que o Alto da Favela teve durante o avanço das tropas sobre Canudos. O nome “favela” veio então a generalizar-se, e que hoje funciona como nomenclatura das regiões pobres das cidades.

Foto: Mídia NINJA

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Nas ruínas do que foi Belo Monte, já voltando a ser reconhecida por Canudos, emerge mais uma vez uma pequena cidade, habitada
principalmente pelas familias dos sertanejos sobreviventes do embate. Ali, mesmo sem a presença do arraial, mesmo com o degolamento de Conselheiro, havia uma memória exposta, uma lembrança iminente, até que em 1940, o presidente Getúlio Vargas, em visita a Canudos, pergunta o que poderia fazer para auxiliar a região, duramente atingida pela seca, então um Coronel pede a Vargas a construção de uma represa. Mesmo com estudos apontando diversos locais para construção do açude, Vargas inicia em 1950 – durante seu segundo mandato – a construção da represa exatamente em cima de onde se localizava o Arraial de Belo Monte, a obra é finalizada por Costa e Silva em 1968, as pessoas que ali residiam transferidas para outro local e a memória visual de Belo Monte submerge.

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Sr. Henrique completou no dia 15 de Março 100 anos de idade, seu pai lutou na Guerra de Canudos ao lado de Antônio Conselheiro quando ainda era um jovem de 15 anos, sobrevivente, continuou morando na região e constituiu uma familia. Atualmente Sr. Henrique sobrevive com recursos de sua aposentadoria e a ajuda de vizinhos, morando em uma casa de taipa, é o homem mais velho de Canudos.

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MONTE SANTO

Monte Santo foi fundada em 1775, quando, ao visitar a região, o Frei Apolônio de Toddi percebeu a semelhança entre o monte e Jerusalém. Propôs, então, que se construísse um trajeto de penitência até o topo do morro. O caminho de pedras muito íngreme é marcado pela presença regular de 22 crucifixos – posteriormente transformados em pequenas capelas -, o primeiro dedicado às almas, os 7 seguintes representando as dores de Nossa Senhora e as 14 restantes lembrando o sofrimento de Jesus. Ao final do percurso, no topo do monte, uma igreja foi construída.

Foto: Mídia NINJA

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Até os dias de hoje a igreja recebe milhares de visitas durante o ano, principalmente de devotos que buscam a realização de curas para doenças entre outros tipos de pedidos para as santidades. O maior índice de visitas se dá durante a Semana Santa, porém, segundo Lourenço – um dos cuidadores da igreja – pelo menos 5 pessoas sobem o monte diariamente para registrar seus pedidos e agradecer dádivas.

Foto: Mídia NINJA

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No filme de Glauber, o Monte Santo é um dos cenários de encontros épicos, representa a jornada em busca da terra prometida, onde água do rio se transmuta em leite, as pedras em pão e os arbustos secos do sertão em flores.

Foto: Mídia NINJA

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Lorival é guardião da capela no alto de Monte Santo, todos os dias sobe o morro com 2 jegues carregando água e alimento para os visitantes da igreja.

Foto: Mídia NINJA

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EU NÃO ME ENTREGO NÃO

“…o soldado obscuro transcendia à História quando — vítima da desgraça de não ter morrido —, trocando a imortalidade pela vida,
apareceu com os últimos retardatários supérstites…” se referia Euclides da Cunha a Cabo Roque. Glauber safo demais para cair no mesmo infortúnio do soldado, previu a própria partida, segundo seu braço direito, o cineasta Roque Araújo, o profeta lançou “Castro Alves e eu nascemos no mesmo dia, ele morreu com 24, eu morrerei com 42”, dessa forma Glauber Rocha se projeta na eternidade e, assim como Corisco, peleja até o fim de seus dias contra os coronéis e jagunços do velho mundo que até hoje tentam nos dominar.

Foto: Mídia NINJA

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O sertão vai virar mar / A cidade vai vir a amar

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