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Traição

Ao ser retirada da cama ainda de camisola, não tive mais opção a não ser abrir os olhos e encarar o que estava por vir…

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Precisamos falar sobre o dado de que uma
em cada quatro mulheres foi vítima
de algum tipo de violência na pandemia

Acordei com mãos me puxando, ainda com a mente confusa do sonho sobre o último encontro com Silvestre. Acho que a esperança de felicidade que ele incitou naquela tarde ficou comigo até a noite, custando em abandonar meus pensamentos. É interessante como os sons ao nosso redor muitas vezes participam dos nossos sonhos e demoramos para perceber que aquilo não é real. Nesse caso, como eram as vozes altas dos parentes ao meu redor que estavam participando do meu devaneio inconsciente, de alguma forma, deduzi que estava dormindo. Ainda assim, a sensação de esperança me fez querer não despertar.

Ao ser retirada da cama ainda de camisola, não tive mais opção a não ser abrir os olhos e encarar o que estava por vir. Era de se esperar que eu estivesse surpresa ou algo do gênero, mas não era a primeira vez que eu amanhecia de forma truculenta naquela casa. Apesar disso, o piloto automático foi acionado quase que instantaneamente, o medo descarregando adrenalina nas minhas veias. Mesmo ainda não sendo dia, meus sentidos despertaram de forma rápida, minha pupila dilatando à medida que eu começava a ofegar: um estado de alerta identificável no meu rosto.

Fui jogada no chão da rua com força, me tornando atração para aqueles que moravam ao meu lado e me davam bom dia todas as manhãs. Não compreendia o que estava acontecendo, nunca antes a violência tinha ocorrido de forma pública. As agressões aconteciam sempre a portas fechadas, com machucados cobertos e mentiras contadas. Busquei sentido na situação, mas minhas perguntas ficavam sem respostas enquanto as únicas palavras proferidas pelos meus algozes eram xingamentos – não é como se aqueles que detêm o poder estivessem acostumados a se justificar.

_ Soubemos que você me traiu! – escutei dizer uma voz que sempre fazia meu coração disparar, mas não pelas razões certas nos últimos tempos.

Meu marido apareceu entre os que assistiam à cena.

_ Do que você está falando? – gritei alto para me fazer ser ouvida. Se ele tinha decidido convidar a comunidade para participar daquilo, que eles escutassem os dois lados da história.

Um tapa na cara foi a sua primeira resposta.

_ Não negue! Te viram saindo de uma casa com um homem e me contaram. Já lidamos com ele.

Caí de joelhos, aos prantos. Sabia de quem meu marido falava e isso já era o suficiente para eu perder a vontade de tentar impedir o que viria.

_ Não vai negar?

Pensei em todas as desculpas que poderia dar e como elas seriam recebidas – descartadas, com certeza. O prolongamento do meu silêncio era interpretado como confissão e não como um raciocínio impreciso com foco em sobrevivência. Mesmo prevendo o resultado, optei por tentar invocar o lado emocional do meu marido.

_ Adianta? Você já tirou suas conclusões.

_ Vaca mentirosa! – disse enquanto puxava meus cabelos até que eu escorregasse e batesse com o rosto no chão. Seu descontrole tinha cheiro de álcool e suas mãos de sexo, só que não o meu.

Não me esforcei para levantar. Conhecia meu marido e sua família o suficiente para saber que meu futuro já havia sido decidido. A preocupação deles com a honra era muito maior do que qualquer respeito por outro ser humano. Eles comandavam o bairro através do medo. Na sua lógica deturpada, de todas as regras para manutenção do poder, lealdade encabeçava a lista, o que seria justificativa suficiente para aquele espetáculo.

Momentos como aquele eram usados para reforçar o poder da família. Exposição e degradação eram as táticas utilizadas para rebaixar o “réu” a ponto de não haver mais vontade para se defender ou revidar. Às vezes, o comando penalizava duas pessoas ao mesmo tempo, incitando que uma matasse a outra para acabar com seu próprio sofrimento.

_ Você realmente achou que eu não iria descobrir? – sussurrou meu marido antes de me dar uma joelhada no nariz.

Ouvi o osso quebrando antes de sentir a dor. Desmaiei por uns minutos, mas logo fui despertada pelo latejamento do meu nariz. Nesses poucos segundos lembrei do começo do nosso namoro, eu ainda nova e deslumbrada com toda a autoridade que emanava dele. Apesar dos conselhos da minha mãe, me apaixonei por ele – ou por seu status – e somente com o tempo fui descobrindo o que significava ser mulher de traficante.

As brigas começaram com questionamentos sobre minha roupa e minhas idas ao baile da favela. Depois, reclamações sobre eu ter conversado por algum homem. O primeiro tapa foi por conta de uma mensagem de Whatsapp do meu ex – como se fosse possível controlar esse tipo de coisa. Após cinco anos de casamento e três filhos, não tinha amigas, não saía de casa e tinha perdido, de acordo com ele, “a leveza de quando era bonita”. Isso tudo aconteceu na mesma época em que ele foi tomando o morro. Só então percebi que limites, intransponíveis para mim, eram cruzados diariamente por ele como se fossem uma cortina de bolas de sabão.

Se eu era culpada de algo, é de não ter tido coragem de terminar. Há muito não amava mais aquele homem a quem a opinião dos outros era mais importante que a felicidade da esposa. Fingi querer por não ter opção, a perspectiva de ter uma vida pacífica longe dele nunca havia me parecido possível. Diversas foram as vezes que transei pensando em como escapar; em que me forcei a satisfazer sexualmente aquele homem por puro medo de dizer não. Sei que se traí, foi a mim mesma, por ter suportado todas as surras e humilhações e por ter esquecido de quem deveria ser minha prioridade.

_ Podem começar – foram as palavras que selaram meu destino.

Enquanto recebia chutes de pessoas que considerei amigas um dia, pensei em Silvestre. Na tentativa de me ajudar a denunciar meu marido, foi confundido com meu amante e teve um fim que, assim como eu, não merecia. Diferente dos demais homens com quem cresci, conseguiu terminar os estudos e ajudava a comunidade, tentando mostrar aos jovens caminhos longe do tráfico.

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Foi com ele que consegui me abrir e com quem compartilhei minhas angústias. Silvestre me levou à delegacia e me mostrou formas de seguir meu caminho longe do meu marido, sem medo de perder a vida. Ele me apresentou uma advogada especializada em relações abusivas e era da casa dela que estávamos saindo quando os reguladores dos bons costumes nos viram. Todos eles já ouviram meus gritos de ajuda enquanto apanhava do traficante do bairro, mas ninguém se predispôs a ajudar. Tocaram a vida como se aquilo não lhes dissesse respeito, mas não hesitaram em espalhar uma fofoca que teve como consequência aquele momento.

Senti o sangue escorrendo pelo meu rosto e uma dor aguda no estômago. Percebi que não demoraria muito mais, morria por um disse me disse de rua. Talvez alguma rapariga que quisesse meu marido tivesse iniciado os rumores. Mas se fosse possível pensar em algo positivo sobre aquele episódio, diria que era acabar com meu sofrimento. Ele pode até ter “limpado” sua honra – que eu sabia que não existia – mas sua imagem para sempre estaria manchada.

Sorri e aguardei o fim, a tão almejada liberdade.

Virando Páginas. Céu.

Luara Batalha

Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Apaixonada pelas letras, é colunista semanal dos sites Fala Barreiras e Folha de Sergipe. Teve seus contos “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos, “Momento não esquecido” publicado na antologia Feminismos, “Terapia” selecionado para a antologia Brasil, mostra a tua cara e “Para o porteiro” selecionado para o Prêmio OFF FLIP de Literatura. Atualmente trabalha no seu primeiro romance.

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