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Será que chegamos a nossa última parada?

Artigo de Luara Batalha, baiana com mais de 10 livros publicados e atualmente trabalha no seu primeiro romance…

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Luara Batalha

Imagine viajar o tempo todo. Passar poucos dias em cada lugar e ter a possibilidade de conhecer novas culturas, paisagens e gastronomias. Para muitos, esse é um estilo de vida a ser almejado, ainda mais se for possível ser remunerado para viver de forma itinerante. Só que, de tanto viajar – e aqui falo de algo cotidiano e não aquela viagem anual ou em feriados – a pessoa não cria laços, perde eventos familiares e sociais, não vê o sobrinho crescer e não participa das comemorações inesperadas.

Esse “estar ausente” (Quem já viu ao filme Amor Sem Escalas poderá visualizar melhor o “estar ausente”) foi a situação tratada no conto de abertura do livro Contos de Mentira de Luísa Geisler. Nele acompanhamos um jovem que não tem mais identidade, por estar sempre entre pontos – e observem que isso pode ser facilmente usado como uma analogia para outros aspectos da vida. Aos poucos, o protagonista mistura idiomas, esquece de onde veio, para onde vai e não consegue mais se recordar o que pode ser tão interessante na próxima parada. Esse conto, cheio de mensagens, é uma grande entrada para os demais, não é à toa que é destaque do livro.

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Nas demais páginas acompanhamos recortes da vida de diversas pessoas. Dos bastidores, vemos casais confusos, declarações não correspondidas e formas de se desviar de assuntos delicados, percebendo assim que todos os personagens estão na mesma situação: em trânsito (como mostra a capa do livro). Esse deslocamento constante não é necessariamente um movimento entre pontos, mas uma transição.

Em nossas vidas, passamos por fases, algumas não muito agradáveis, que são, na verdade, “pontos de partidas” ou “situações momentâneas”. Explico melhor: todos nós conhecemos alguém – ou somos essa pessoa – que está num emprego do qual não gosta, mas paga bem, ou aluga um apartamento com a meta de passar somente alguns anos enquanto constrói a casa, ou se priva de sair agora para poder viajar amanhã. Ou seja, esta pessoa está em transição.

Fugindo da esfera financeira, podemos pensar em relacionamentos. No início do namoro, há uma sintonia que, em algumas vezes, se perde com o passar dos meses, e acabamos justificando essa alteração como “uma fase”. Isto, nada mais é, do que a tal transição. De amizade, para namoro, para noivado, para casamento, para nada. Estamos em constante mudança, buscando um objetivo, algo no fim da linha, e o grande problema é quando não chegamos lá.

Todos os contos do livro de Luísa abordam pequenas fases – transições – da vida e o de abertura é mais direto na representação do que observamos por aí. Para algumas pessoas, a fase/transição, se torna o fim. Os planos desaparecem, os anseios são esquecidos e elas simplesmente são levadas pela vida. Se perdem. Deixam de ter um destino definitivo e entram no ciclo de tentar se convencer que aquilo é só algo momentâneo – porque não é nada fácil admitir que no caminho, pararam.

Esclareço que não há nada errado em paradas programadas, conexões de voos ou alterações de última hora. Isso se chama vida. O que trago aqui foi a inquietação que me surgiu ao ler a obra, será que chegamos a nossa última parada?

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Luara Batalha
Baiana com mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em obras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, teve seu conto “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos e atualmente trabalha no seu primeiro romance.

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