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Reviver histórias: a saga Crepúsculo

Bella acumula todas as inseguranças e anseios que a maior parte das adolescentes dos anos 2000 sentia…

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Luara Batalha

Um dos meus passatempos favoritos é assistir filmes, inclusive os que já vi antes. Com alguns, mesmo conhecendo as cenas e as falas, me emociono de novo, facilmente revivendo os sentimentos da primeira vez. É quase como se fossem uma novidade. Engraçado que não possuo o hábito de reler livros, apesar das minhas constantes anotações mentais das obras que valem a pena ser vivenciadas novamente. Acaba que, por conta do tempo que eu levaria para executar a tarefa e a lista interminável de histórias a serem descobertas, eu opto por conhecer novas páginas.

E eis que Stephanie Meyer lança Sol da meia-noite, a história de Crepúsculo pelo olhar de Edward. Uma oportunidade de reviver aquele romance em outras páginas. Minha adolescente interior enlouqueceu, por eu sempre ter tido curiosidade sobre o raciocínio do meu vampiro favorito. Já meu cérebro adulto queria fazer um experimento, verificando minha percepção sobre essa fantasia juvenil lida há mais de uma década.

Saga Crepúsculo

Fugindo da regra, e considerando que a história é mundialmente conhecida, darei spoilers do livro para dividir como foi essa experiência. Para começar, minha opinião de que a autora criou protagonistas que são reflexo e objeto de desejo de quase todas as garotas que leram os livros não mudou. Bella acumula todas as inseguranças e anseios que a maior parte das adolescentes dos anos 2000 sentia: tímida, poucos amigos, insegura, incompreendida, desastrada mas com um discurso de independência, senso de justiça elevado, romântica, corajosa e com a opinião de que é bem inferior ao namorado. Provavelmente, todas as mulheres se identificam com pelo menos um item da lista – mesmo que sem motivo.

Quando focamos em Edward, percebemos que ele é bonito, seguro, cavalheiro, romântico, educado, inteligente, rico, cheiroso, fiel, respeitador (se recusou a dormir com Bella antes do casamento) e o fato de ser vampiro é minimizado por ele não se alimentar de pessoas e por brilhar sob a luz do sol. Em outras palavras, ele é uma versão vampiresca de um príncipe encantado, algo buscado e de improvável existência. Portanto, quem nunca foi uma Bella amando um Edward? Há uma identificação natural com o casal.

Então, na primeira metade do livro – como esperado – me vi apaixonada por Edward novamente. Estava encantada com sua devoção até ele entrar escondido no quarto de Bella enquanto ela dormia. Dez anos atrás eu não problematizei isso, achei até́ romântico, mas agora fiquei bastante incomodada. Para amenizar, o personagem se repreende diversas vezes por sua atitude, mas isso não o impede de repetir e seguir agindo sem o consentimento dela.

Com o aumento da intensidade do romance entre os dois, me decepcionei ainda mais com os personagens e com a relação entre eles. Bella se afasta de todos os amigos e precisa se “enquadrar” para poder ter uma relação com ele – no caso, se tornar vampira. Edward, por sua vez, possui pensamentos cíclicos e uma sensação de culpa que nunca é apaziguada por ele continuar se comportando da mesma forma – e claro que na história de Stephanie Meyer terapia não é nem cogitada.

Minha adolescente interior sofreu com a decepção amorosa que foi reler o livro, enquanto meu cérebro adulto comemorou a experiência. No fim, achei a atividade bastante interessante porque meu amadurecimento me fez perceber os pontos questionáveis da história, além das técnicas utilizadas para prender leitores. Então, me arrependi de reler? Com certeza não, mas constatei que tem histórias que não devem ser revividas.

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Luara Batalha
Baiana com mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em obras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, teve seu conto “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos e atualmente trabalha no seu primeiro romance.

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