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O cheiro da formação de laços

Coluna de Luara Batalha, engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas, atuante em ensino e pesquisa, dedicada às expressões artísticas, leitora voraz, apaixonada por letras e trabalha em seu primeiro romance

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Luara Batalha

Hoje resolvi falar sobre a minha infância. Poderia ser uma tarefa fácil acessar a caixinha de recordações pueris, mas não posso simplesmente narrar fatos. Quero honrar esse período e as pessoas que dele participaram. Meu desejo é conseguir conduzir vocês pelas minhas memórias de uma casa no bairro da Caixa d’água, em Salvador.

Cresci em bando. Minhas primeiras lembranças se referem ao meu bando de primos. Passávamos todas as tardes de sábado na casa de meus avós. Crianças sem pudor, cujas idades não importavam, brincávamos de corre-corre, esconde-esconde e cavalinho até ouvir as reclamações do famoso Seu Batalha. Nesse período, tudo era motivo de farra, inclusive formar linhas para que todas as mães catassem piolho nos nossos cabelos. Como bom bando, tínhamos que pegar piolhos juntos, não?

Se fecho os olhos, ainda consigo ver a casa do jeito que era. Atravesso a sala, a cozinha e paro no quintal, um espaço com um pé de mamão e várias possibilidades representadas por portas. O primeiro lugar que lembro de ter explorado. Uma porta escondia um quarto cheio de roupa para passar; a outra ocultava um ateliê para trabalhos manuais de minha avó; e a minha porta predileta proibia o acesso ao escritório de meu avô. Não consigo enumerar quantas vezes entramos ali escondidos para ver o que tinha. Por sinal, não havia nada além das coisas que teria um velho senhor, mas isso não tornava a brincadeira menos interessante.

Com o tempo, a diferença de idade foi mostrando sua cara e, o que antes era insignificante, terminou por nos dividir. O bando se transformou em pequenos grupos sem nem percebermos. As reuniões aos sábados passaram a ter cada vez menos participantes, e nossas mães não conseguiam mais nos fazer comparecer. Com isso, a alegria da semana perdeu o brilho. Nesse momento, cada panelinha seguiu o seu caminho, descobrindo e formando novas matilhas. O ninho vazio fez com que outra moradia fosse procurada, já que aquela casa tinha concluído o seu propósito inicial: criar laços.

A vida adulta tomou as rédeas dos nossos hábitos e, anos depois, novos núcleos familiares foram criados, diminuindo nosso contato. Só que, o que nenhum de nós esperava era perceber, após tanto tempo, a importância daqueles momentos vividos na casa da Caixa d’água. A nossa referência de família, de apoio, de amizade, de infância nasceu ali, naquela casa. Agora, buscando proporcionar isso as nossas próprias famílias, reencontramos nosso caminho e os vínculos foram despertados – já que nunca haviam sido esquecidos. Hoje, somos compadres e comadres e trocamos apadrinhamento em casamentos e batismos. O bando criado na nossa infância se reconectou, novos membros foram recebidos e agora é a nossa vez de permitir que a próxima geração repita esse ciclo.

E o que guardo com mais carinho daquela época? O eco das gargalhadas, o cheiro do cavaco (Doce feito com uma massa de farinha e ovos, que, após frita, é polvilhada com açúcar e canela), cuja receita nunca foi descoberta, e o conforto de que, nas reuniões de família, sempre terei com quem dividir lembranças e começar, com tom de saudosismo, uma conversa com: “lembram daquela vez, na casa da Caixa d’água…?”.

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Tarita

    12 de outubro de 2020 às 14:04

    Que delícia de texto !! Entrei no túnel do tempo . Como é bom reviver a infância através das lembranças

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