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Nordeste com D e T

É uma delícia ver outros cactos por aí…

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No meio do corre-corre dos nossos dias cheios de compromissos, com álcool em gel nas mãos e máscara no rosto, passamos a acompanhar um grupo de estranhos dentro de uma casa, socializando com menos de um metro e meio de distância. Daqui, com toque de recolher e limpando as embalagens de tudo que compramos, lembramos como eram os encontros com familiares, as viagens no final de semana e até os shows das bandas que gostamos. Contudo, fomos lembrados também que, mesmo sem pandemia, conviver não é fácil. Lidar com princípios (ou a falta deles), crenças, diferentes histórias de vida, posicionamentos políticos e preconceitos é um desafio que não é evitado pelo uso de máscaras.

Assistimos seres humanos serem julgados e humilhados até por coisas banais, como sua região de origem e seu sotaque. Isso mesmo, a forma que a pessoa enfatiza algumas letras ou sílabas ao falar virou piada e provocou uma enxurrada de comentários no cybermundo. Só que, da mesma forma que alguns riram, outros tantos se tornaram “cactos”. Usaram um terreno árido e difícil para promover a valorização da nossa Terra, do norDesTe, da nossa cultura e da nossa culinária.

Para mais de 25 milhões de pessoas, se reconhecer nas redes sociais ou no programa de televisão foi motivador, ainda mais se considerarmos que os nordestinos, geralmente, são caricaturados em novelas e filmes. Essa satisfação pode ser comparada ao sentimento de se reconhecer em histórias literárias. No meu caso mais recente, Se eu pudesse, Danila, te levava pra tomar banho de mar em Guarajuba, de Breno Fernandes. Apesar de minha vida ser bem diferente das dos personagens do livro, dois pontos me atingiram em cheio: os locais citados e a linguagem.

Cleolauro (e sim, vemos nomes desse tipo por aqui), protagonista do livro, é um jovem que roda Salvador com sua bike fazendo entregas solicitadas por aplicativo. Pelos caminhos, fez amigos nos bairros do Imbuí e de Brotas, na avenida Tancredo Neves e transitou pela passarela do Iguatemi. Para quem nunca foi em Salvador, provavelmente isso não significará nada, mas eu conheço cada um desses lugares. Inclusive, foram indicados locais e rotas que me fizeram traçar mapas mentais e sorrir ao perceber que já tinha passado por ali. Acostumada com histórias que se passam em cidades que terminam com um th impronunciável em português, ler nomes conhecidos me ajudou a mergulhar ainda mais nas aventuras de Cleo (ou Lauro) – para os íntimos.

Isso também está muito relacionado à escrita de Breno. Toda a história me pareceu um bate papo entre amigos por conta da oralidade presente nas construções frasais, do uso de gírias e da forma sútil em que assuntos tidos como “pesados”, como misoginia e racismo, foram inseridos nos diálogos dos personagens. Nem de longe ele “bateu textão”, como dizem nas redes sociais, mas mostrou como isso está tão enraizado no nosso dia a dia, que precisamos aprender a reconhecer e reagir – assim como fizemos com o BBB. Uma aula sobre viver em sociedade com linguagem young adult e sotaque baiano.

Para quem não é da cidade, não se preocupe, no final do livro ainda tem um glossário com a tradução dos termos menos convencionais da língua portuguesa. Um verdadeiro dicionário soteropolitano, no qual me reconheci desde a primeira página, assim como vi a norDesTina na tevê. É uma delícia ver outros cactos por aí.

Virando Páginas. Céu.

Luara Batalha

Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Apaixonada pelas letras, é colunista semanal dos sites Fala Barreiras e Folha de Sergipe. Teve seus contos “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos, “Momento não esquecido” publicado na antologia Feminismos, “Terapia” selecionado para a antologia Brasil, mostra a tua cara e “Para o porteiro” selecionado para o Prêmio OFF FLIP de Literatura. Atualmente trabalha no seu primeiro romance.

Céu

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