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Meia-noite

O vento trazido pelo 00:00 pode ser suspeito…

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Apaguei as luzes do jardim e da varanda e estava no caminho para desligar a da cozinha quando vi o micro-ondas piscando a mudança de minuto, era meia-noite. Nunca gostei desse momento, a virada de um dia para o outro, a representação perfeitamente redonda de que podemos reescrever a nossa história da melhor forma possível, como os coaches virtuais adoram propagar. Se você não leva sua vida de forma organizada, feliz ou correta, não será o 00:00 que magicamente operará essa mudança.

O som do vento me tirou do devaneio. Aquilo sim me incomodava, os barulhos inexplicáveis que só podem ser ouvidos à noite. Ali, os dias eram passados entre livros e o refresco da piscina, mas com o entardecer vinha minha ansiedade em relação aos ruídos noturnos. Frouxa que sou, nunca tive coragem de explorar de onde vinham, apesar de me parecer que se originavam no quarto de empregada no fundo da casa. Considerando que eu era a 182ª locatária do local e que me tinham expressamente recomendado a não entrar naquele cômodo, sempre me mantive longe.

Talvez tenha sido o pensamento sobre tentar melhorar a vida com a mudança de dia, mas senti uma vontade esmagadora de me provar errada, de ter a coragem necessária para explorar os demais espaços da casa, no escuro, ouvindo o vento e os barulhos sinistros, inclusive, de entrar no tal quarto. Fui andando devagarzinho, escutando o vazio e procurando justificar cada barulho de forma racional: “esse galho quebrando deve ter sido um gato atrás de sua presa”; “não, isso não foi uma porta se abrindo, mas a janela da sala que deixei aberta”.

A porta do quarto estava trancada. O dono não tinha me dado especificamente nenhuma chave da casa, mas um chaveiro com todas. No meu primeiro dia ali passei a tarde separando as chaves dos espaços que eu iria utilizar durante aquela temporada. Apesar do tamanho da casa, optei por usar somente um quarto, um banheiro, a cozinha e a sala. Não precisava de muito espaço para me sentir confortável e quantos mais cômodos utilizasse, mais locais haveriam para eu limpar no dia da faxina.

A medida que ia testando cada uma das chaves, sentia os pelos da nuca arrepiar, como se eu estivesse sendo observada. De dentro do quarto vinha um som de lamento, quase um choro, uma lamúria. Meu coração batia mais forte a cada chave incorreta que eu descartava, na mesma velocidade em que meu cérebro processava a constatação de que eu não conseguiria abrir a porta, até eu ouvir um clic e a porta se abrir na minha frente.

Dezenas de olhos vítreos apontavam para mim, como se eu fosse algum tipo de alvo. Tinha visto num documentário que, a depender do predador, a melhor defesa é se fingir de morto. Meu instinto deve ter processado essa informação porque, apesar do meu cérebro gritar “corre”,

minhas pernas não obedeciam. Tentava me mover, sentindo a aproximação de todos aqueles olhos, mas me sentia presa em areia movediça.

Quando, finalmente, consegui dar um pequeno passo para trás, percebi que os olhos não eram humanos, não piscavam. Eram olhos costurados. Rapidamente voltei a racionalizar a situação e me dei conta de que não precisava enfrentar aquele breu. Com a lanterna do celular iluminei o ambiente, que se mostrou o ateliê de algum fã, pouco habilidoso, de Stephen King. Ao longo do perímetro de todo o quarto tinham bonecas de pano penduradas no teto como pedaços de carne num açougue. Sem pernas, rasgadas, com rostos deformados, bocas em grito, incompletas.

No chão, era possível ver poças vermelhas formadas pela tinta que pingava de cada uma das bonecas. Todas pareciam representar algum tipo de sofrimento, menos uma, a única que não estava pintada. Cheguei mais perto e direcionei a luz do celular: a boneca estava vestida com um conjunto igual ao meu pijama, o cabelo preso no meu característico rabo de cavalo e em suas mãos uma plaquinha dizia “locatária 182”.

O grito que dei me tirou do pesadelo de uma só vez. Sentei no sofá atordoada, arfando enquanto verificava se meu corpo ainda estava inteiro e se a sala da casa estava de fato vazia. Tinha adormecido no meio do jornal, toda torta em cima das almofadas grossas. O suor ainda escorria pelas costas quando levantei para pegar um copo de água na cozinha e vi a mudança de minuto no visor do micro-ondas. Era meia-noite e o vento trazia lamúrias.

Virando Páginas. Céu.

Luara Batalha

Baiana com mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Apaixonada pelas letras, é colunista semanal dos sites Fala Barreiras e Folha de Sergipe. Teve seus contos “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos, “Momento não esquecido” publicado na antologia Feminismos, “Terapia” selecionado para a antologia Brasil, mostra a tua cara e “Para o porteiro” selecionado para o Prêmio OFF FLIP de Literatura. Atualmente trabalha no seu primeiro romance.

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