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Genética

Uma história de mesa de bar. Beatriz e Júlia colocam a mãe contra a parede…

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Luara Batalha

As gêmeas chegaram tarde. Morenas, esbeltas e com uma cor de quem vai constantemente a praia, Beatriz e Júlia se dirigiram ao seu lugar de sempre. Trabalhavam como advogadas num escritório do outro lado da rua e, todos os dias, ao terminarem o expediente, esperavam o fim do congestionamento batendo papo com estranhos que lhe pagavam bebidas. Quando as investidas ficavam incômodas, se despediam dos galanteadores e prometiam entrar em contato – o que duvido que tenham feito.

Fugindo do costume, naquela noite negaram todas as abordagens masculinas e passaram duas horas ocupando os bancos sem consumir nada, se sobressaltando todas as vezes que a porta do bar abria. Se não fossem clientes regulares, teria pedido para liberarem os assentos. Às sextas o local fica cheio e eu podia ter sugerido que elas se deslocassem para o corredor do bar, um espaço pouco disputado. Optei por deixá-las onde estavam por pura camaradagem e agradecimento pelo lucro que traziam. A fama de serem receptivas a encontros fazia com que executivos, com ternos mais caros que o meu salário, aparecessem e consumissem tudo do cardápio somente para impressioná-las.

Naquela noite, as duas pareciam estudar as possibilidades de interações entre elas e uma pessoa específica. Nenhuma delas concordava com a suposição da outra, fazendo com o ensaio terminasse antes de fazer qualquer sentido para mim. Recomeçavam, se interrompiam, discordavam e voltavam ao início. Estavam fora de sintonia, dispersas, com o foco voltado para a porta e para o indivíduo que claramente esperavam.

Após o que pareceu, para Beatriz e Júlia, uma eternidade, uma mulher de tailleur e cabelo milimetricamente arrumado entrou destoando de tudo ao seu redor. Com vestes, sapatos, pasta e óculos pretos, parecia ter acabado de sair de um enterro. Seu sorriso combinava com a paleta de cores escolhida para aquele dia, assim como sua educação. Atravessou o bar com poucas passadas e sem cumprimentar ninguém, começando seu discurso antes mesmo de chegar em frente as gêmeas.

– O que pode ser tão importante para vocês me fazerem atravessar a cidade no horário de pico de engarrafamento? – seu tom deixava claro que era acostumada a dar ordens.
– Susie, entendo sua irritação, – começou Beatriz – mas não poderíamos conversar sobre isso por telefone.
– É, mãe, tem coi…
– Pare de falar agora, Júlia Maria! Eu não sou sua mãe! – rosnou a tal Susie, que nem sentou, demonstrando total desinteresse em permanecer no bar.

Desgostei da mulher no segundo que chegou e com aquelas duas frases já queria colocá-la para fora. Infelizmente, não podia. Se fosse expulsar todo mundo que era grosseiro naquele ambiente, teríamos pouquíssimos clientes. Continuei atendendo as demais pessoas presentes no bar, mas com a atenção voltada para o que ocorria com as gêmeas.

– Claro que é, você nos colocou no mundo!
– Realmente, minha querida, coloquei no mundo. Pari vocês, se quiser falar de forma clara e bestial, mas preciso lembrá-las, novamente, que as entreguei para adoção? – não tive como não olhar para o trio ao ouvir isso. Realmente elas possuíam feições muito parecidas, mas comportamento diametralmente diferentes. Contudo, o mais evidente naquele momento, o olhar de dor das garotas.

Era visível como aquele tema era algo delicado para elas, o que é no mínimo interessante, se considerada a segurança que elas demonstravam todo o tempo. Não que fôssemos amigos e eu soubesse detalhes das suas vidas, mas como o responsável pelo balcão, já havíamos conversado sobre amenidades vezes o suficiente para eu ter uma opinião formada. Quando compreendi do que se tratava o assunto, tentei não escutar mais daquela conversa nitidamente particular, mas não consegui. Quando se quer privacidade, o último lugar do bar onde se deve sentar é no balcão.

– Tudo bem, Susie, – interveio Beatriz, sempre a mais controlada da dupla de irmãs – não te chamaremos de mãe. Mas também não precisamos te lembrar que você deixou claro que poderíamos te procurar aos dezoito, não é? Então contenha a sua fala.
– Um erro tolo de uma garota ainda mais tola. Eu era muito nova e inconsequente, como já devem ter deduzido pela minha gravidez indesejada.

Quem visse as gêmeas naquele momento, diria que eram uma falsificação de péssima qualidade das garotas que frequentavam aquele bar. Sempre tão animadas e leves, estavam claramente com dificuldades de controlar as emoções. Enquanto Júlia se afundava mais no banco a cada frase da mãe, Beatriz utilizava um tom seco que contrastava com uma veia que latejava em sua testa a cada vez que abria a boca.

– Os seus motivos não vêm ao caso. Fomos adotadas e temos uma família maravilhosa, o que claramente não teríamos com você.
– Excelente, tudo esclarecido então! Como advogadas, sabem então que não tenho obrigação jurídica com vocês.
– Sim, sabemos, Susie, – reagiu por fim Júlia – mas não viemos exigir nada.
– Não de forma direta, pelo menos – complementou a outra.
– Afinal, o que vim fazer aqui? O que vocês querem? Dinheiro? Não podem esperar que eu gaste um único centavo com vocês.
– Não, Susie, claro que não! – disse Beatriz – Fomos bem-criadas, e não precisamos de dinheiro, o que queremos é um favor.
– Favor? – desdenhou mais uma vez a progenitora.
– Sim. Nosso pai foi demitido e, devido a sua idade, está com dificuldades de se recolocar no mercado. Ele não precisa do dinheiro, já está aposentado, mas ficar em casa todo o dia está deixando o velho deprimido – começou Júlia.
– Como você é a única pessoa que conhecemos com bons contatos, achamos que não será um grande estorvo conseguir qualquer trabalho para que ele se ocupe.
– Isso é algum tipo de piada? O que me levaria a conseguir um emprego para o homem que adotou as duas garotinhas que eu dei há vinte e sete anos? Seria esse um presente de agradecimento por ele ter corrigido meu erro? – perguntou fazendo o sinal de aspas na palavra “corrigido”. Um sorriso despontou no rosto de Susie, quase como se tivesse satisfeita por ter dito aquilo.

Engasguei com aquele sorriso. Como atendente, já tinha ouvido diversas histórias familiares disfuncionais, até presenciado algumas cenas, mas nenhuma delas envolvia uma crueldade tão nitidamente prazerosa para algum dos envolvidos como vi ali. O que mais me surpreendeu, no entanto, foi o silêncio das gêmeas. Elas se olhavam como se conversassem pelos olhos, confirmando o alinhamento para o próximo passo.

Toda essa troca de olhares levou somente alguns segundos, mas me pareceu que estávamos em câmera lenta tamanha era a minha expectativa com a resposta delas. Quando reagiram, já haviam retornado ao seu comportamento seguro de todos os dias, como se a partir daquele ponto controlassem a situação, como se já tivessem antecipado a fala da mulher. Foi com certa felicidade mordaz que Júlia começou sua explicação.

– Bem, querida, – disse enfatizando a palavra como a mãe havia feito – não queríamos chegar a esse ponto, mas você não colaborou.

Susie olhava de forma impaciente para as gêmeas enquanto tamborilava o balcão com unhas longas e pretas. Minha vontade era pedir encarecidamente que ela parasse e lavar todo o granito com água sanitária.

– Imaginamos que você, como parlamentar da extrema direita, não tenha contado aos seus colegas de partido sobre como perdeu a virgindade antes do casamento, muito menos que teve duas filhas, não é?
– O que você está insinuando, garota?
– Como dissemos, tem coisas que não podem ser registradas ao telefone. De fato, juridicamente você não nos deve nada, mas aos seus eleitores… bem, seus eleitores não iam gostar nada de saber sobre o seu segredo.
– Vocês não ousariam! – reagiu Susie sussurrando entre dentes.
– Você vai arriscar? – respondeu Júlia pronunciando cada uma das sílabas pausadamente.
– Esperamos uma ligação do seu gabinete com a proposta de emprego para nosso pai até segunda, amada mamãe – finalizou Beatriz, sorrindo.

As gêmeas levantaram ao mesmo tempo e desfilaram pelo salão como se aquela conversa não tivesse acontecido. Cumprimentaram conhecidos, piscaram para alguns homens e até acenaram para mim quando alcançaram a porta. Enquanto isso, Susie só olhava para as duas, como se não compreendesse o que tinha acabado de ouvir.

Por fim, a mulher despencou no banco recém liberado e passou alguns minutos olhando para a porta, repetindo o movimento das filhas antes de sua chegada. Não sei dizer se era por conta da cor da sua roupa, mas sua pele era extremamente branca, com um tom encardido – talvez um pouco mais destacado devido ao meu desgosto por ela. Apesar de praticamente não ter se mexido, seu cabelo parecia ter ganhado vida e os fios apontavam para diferentes direções. Eu sabia que não deveria me envolver, mas realmente gostava daquelas gêmeas farristas de bom coração.

– Senhora, tal mãe tal filhas, né? O Martini é por conta da casa. Tome – disse colocando no balcão uma taça com uma azeitona dentro – A senhora parece que precisa de um drink para fazer as ligações corretas.

Era esse tipo de coisa que me fazia amar meu trabalho.

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Luara Batalha
Baiana com mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em obras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, teve seu conto “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos e atualmente trabalha no seu primeiro romance.

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