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E a monotonia? Para onde foi?

Por quanto tempo você aguentaria se não tivesse nada para fazer?

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E a monotonia? Para onde foi?

Luara Batalha

Como bons Homo Sapiens, seres pensantes e evoluídos, criamos uma dinâmica social em que estudamos para termos bons empregos para ganharmos dinheiro para pagarmos contas e provermos para nossos filhos, que estudarão para ter bons empregos e assim o ciclo se reinicia. Passamos por cima de momentos, descanso, recordações e quando nos perguntam o que comemos no almoço, não lembramos, porque estávamos focados em outra coisa, planejando o próximo momento, que logo na sequência será esquecido.

Essa busca constante em satisfazer a ideia de aproveitarmos o nosso tempo da melhor forma faz com que pessoas multitarefas se destaquem no ambiente corporativo, mas que elas também estejam constantemente fatigadas por falta de tempo. E aqui não é tempo para produzir, mas tempo para desligar. O ócio criativo. Os multitarefas aproveitam um engarrafamento para fazer uma ligação, uma fila para ler um artigo, o banho para ouvir um podcast. O reconhecimento recebido por essa sobreposição de atividades faz com que o pensamento de “estou no caminho certo” endosse esse comportamento de estar presente/ausente.

Por me ver rodeada de pessoas assim, e acabar me identificando como uma delas, me pego muitas vezes imaginando como seria a minha vida se eu não tivesse obrigações, ambições, metas e tarefas. Um constante ócio, quebrado por atividades definidas com o único objetivo de me entreter e não de colher algo lá na frente. Acredito que no modelo atual de sociedade, a quantidade de pessoas que podem usufruir dessa vida seja ínfima, ainda mais com as redes sociais e o monitoramento constante das nossas realizações. Claro que isso não me impede de desejar essa monotonia quando atinjo picos de estresse, contudo, quando leio livros como Emma, cuja história se passa em torno 1815, me questiono se conseguiria sobreviver a um mísero mês dessa “inatividade”.

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No enredo escrito por Jane Austen, acompanhamos a jovem Emma, que não tem qualquer outra obrigação na vida a não ser cuidar do pai e gerir a casa onde mora – com a participação de uma grande quantidade de empregados e uma conta recheada de dinheiro. Suas preocupações se resumem a como melhor se entreter e receber pessoas, atender aos eventos sociais da região e formar casais entre seus amigos – ela se sente bastante compelida a atuar como um aplicativo de paquera atual. Escrito como uma crítica severa a sociedade da época, todos os personagens são caricaturados e seus comportamentos beiram o ridículo.

O romance se arrasta algumas páginas além do necessário, contudo, o fato de ser possível reconhecer as críticas em cada virada de página me consola porque, apesar de achar que estamos sempre atarefados, a perspectiva de viver do ócio tampouco é acalentadora. Talvez, eu tenha tido essa sensação de repetição ao ler o livro por conta da tediosa vida dos protagonistas, o que, caso tenha sido a intenção da autora, evidencia quão brilhante ela era. Sugiro, então, a versão cinematográfica de 2020 (Indicado ao Oscar 2021 de Melhor Figurino e Melhor Maquiagem e Cabelo. Disponível na Netflix) desse clássico, não só por conta das ensolaradas paisagens, figurinos impecáveis e atuações brilhantes, mas porque estar presente de forma ativa já é algo raro, imagina presenciar 600 páginas de monotonia – melhor focar em 132 minutos.

Então, de fato, o ritmo intenso não é o ideal para ninguém, mas o tédio tampouco é para os fracos. Se buscarmos, encontramos monotonia na esquina, assim como mais tarefas, portanto, é possível achar um equilíbrio? Não sei… se você descobrir, não esquece de me contar.

A antologia Feminismos representa a árdua tarefa que é escrever e publicar. Dezenas de mulheres envolvidas na escrita, revisão, diagramação, ilustração, publicação, propaganda – como eu disse, não basta escrever – e outras tantas atividades. Tudo isso para chamar a atenção dos 52% de leitores do país, e se possível dos 48% de não leitores também. Portanto, escrever é desafiar, é provocar, é ter foça, é se levantar e ter voz (“… sente uma força correndo na espinha das palavras da neta. Será que ela pode mesmo se levantar e ter voz?” Conto A linda flor de bambu, da escritora Denise Fonseca, da antologia Feminismos).

Virando Páginas. Céu.

Luara Batalha

Baiana com mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Apaixonada pelas letras, é colunista semanal dos sites Fala Barreiras e Folha de Sergipe. Teve seus contos “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos, “Momento não esquecido” publicado na antologia Feminismos, “Terapia” selecionado para a antologia Brasil, mostra a tua cara e “Para o porteiro” selecionado para o Prêmio OFF FLIP de Literatura. Atualmente trabalha no seu primeiro romance.

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