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De City Food ao Gourmet Park: retornando à literatura local

”A primeira coisa que me chamou atenção foi o uso da língua inglesa no título da obra escrita por um baiano”, Luara Batalha

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Luara Balha

Com a minha inserção no mundo de escritores publicados conheci pessoas que trabalham com esta arte na capital baiana. Fui apresentada ao meio e acabei constatando a pluralidade de vozes, algumas vezes desconhecidas, do nosso mundo literário. Num dos primeiros encontros com essa galera, durante conversas despretensiosas, fui anotando todos os livros à medida que eram citados, e, em determinado momento, pesquei a indicação do livro Sexy Ugly de Paulo Bono.

A primeira coisa que me chamou atenção foi o uso da língua inglesa no título da obra escrita por um baiano. Isso por si só já me intrigou e, como estou na busca de prestigiar mais escritores brasileiros, principalmente os baianos, resolvi apostar nessa leitura. Depois, veio o resumo do livro: um cara contratado para fazer a campanha de um prostíbulo, em Feira Santana, especializado em pessoas feias.

De City Food ao Gourmet Park: retornando à literatura local

Fiquei logo interessada em entender como Paulo Bono teve essa ideia – e aqui falo de método mesmo. Me baseio bastante em acontecimentos a minha volta para criar meus textos, contos e histórias, então, dificilmente, conceberia um conceito tão exótico como esse. E eis que pego o livro, que tem uma escrita muito leve, quase como se fosse um diário do personagem, e me identifico com o protagonista Deco Ramone. Não tenho filho, nem sou publicitária e muito menos ando constantemente mal-humorada, mas me reconheci na fala soteropolitana e me vi nos locais citados ao longo da narrativa.

O título pode passar a falsa impressão de que é um livro de humor, mas o que não falta são críticas. Com uma pitada de acidez e diálogos rápidos, a narrativa traz questionamentos embutidos, em todas as páginas, sobre a nossa sociedade, desde a gourmetização dos serviços oferecidos atualmente à ideia do brasileiro de que o que vem de fora é melhor.

Uma passagem que me chamou atenção, por ser algo que já observei, é uma cena que se passa na feira da cidade, em que Deco Ramone pensa:

“A cidade estava infestada. Feira Gourmet, City Food, Delicius Truck, Gourmet Park, esse tipo de coisa. Assim que chegamos, percebi que não era meu tipo de lugar. Barracas coloridas, cardápios criativos, inúmeras guloseimas que alguém disse que eram a nova ordem em São Paulo ou Nova York. Tudo revestido de uma pseudo-sustentabilidade e discursos felizes e ultrapositivos. (…)

Enquanto Nina falava, eu notava as pessoas da feira. Todas iguais, a maioria branca ou que eles chamam de gente bonita. Poucos negros, só os estilosos e modelos escolhidos por cota, como se fossem produzidos pra estarem ali.”

Como a narrativa é em primeira pessoa, acompanhamos o raciocínio desse personagem direto, roqueiro e bruto, então nem tudo é politicamente correto – o que não deixa de ser uma representação da realidade. Afinal, quando retiramos o filtro social, tendemos a pensar coisas não verbalizáveis.

Outro ponto forte é o regionalismo e os comentários sobre cidades que talvez poucas pessoas fora dos limites estaduais compreendam. Consumimos livros estrangeiros e nos acostumamos com nomes como Pont de l’Archevêché, onde os casais apaixonados colocam cadeados em Paris, e descrições de costumes, músicas e culinárias que não são a nossa – como vemos de forma clara nos filmes de natal disponíveis nos streamings – e muitas vezes não valorizamos o que nasce aqui.

Comecei essa desconstrução ainda esse ano em O poder de uma boa tradução. Minha lista de leituras para 2021 está cheia de autores nacionais. E a sua?

Luara Batalha
Com sangue sergipano, sotaque baiano e mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em obras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, teve seu conto “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos e atualmente trabalha no seu primeiro romance.

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