Siga-nos

Virando Páginas

Companhia sem nome

A bondade está nas pequenas coisas…

Publicado

em

Companhia sem nome

Luara Batalha

Há anos via o mesmo homem, todos os dias, sentado na mureta em frente ao meu restaurante. De blusa regata, bermuda e tênis, com uma vasta cabelereira branca, ele poderia passar por uma pessoa qualquer apreciando o pôr do sol senão fossem os ombros curvados e um porta-retratos que sempre carregava. De longe, imaginava qual seria a sua história e, como sou tímido, nunca me apresentei. Só que, um dia, ao perceber que estava chorando, reuni toda a minha coragem e me aproximei oferecendo água e bombons.

– Boa tarde, desculpa incomodar, mas o senhor está bem? Posso ajudar com algo?

O senhorzinho me olhou através das lágrimas e dos óculos fundo de garrafa e nada respondeu. Era perceptível que havia nele uma grande tristeza. Repeti a pergunta e não obtive nenhuma resposta além de um movimento discreto com a cabeça em agradecimento. Quando estava me retirando, ele, por fim, reagiu:

– Pode ficar um pouco comigo?
– Claro, o tempo que o senhor precisar.

Simplesmente sentei ao seu lado e assisti ao pôr do sol. Em determinado momento, ele segurou minha mão e, apesar do susto com o gesto pouco comum, não retirei. Desfrutada a beleza do fim do dia, ele guardou o porta-retratos em uma mochila e se levantou.

– Obrigado – disse enquanto partia.

Durante dois anos essa foi nossa rotina. Todos os dias ele sentava na mureta, eu esperava alguns minutos, oferecia água e chocolates, lhe dava a mão e apreciávamos o pôr do sol. Nunca trocamos nenhuma outra palavra.

Virando Páginas

Sem aviso, ele parou de ir. Fiquei preocupado, mas nunca havia como procurá-lo. Não sabia nem o seu nome, até que fui abordado por um dos fregueses do restaurante:

– O senhor é o homem que assistia ao pôr do sol todo dia com um senhor idoso aqui na frente? – perguntou uma jovem que vim a descobrir ser uma das filhas do senhorzinho, que se chamava Giordano – Meu pai faleceu há duas semanas e encontramos esta carta entre as suas coisas. Acreditamos que seja para você – e me entregou um envelope onde se lia “Para minha anônima companhia”.

Sua morte e sua carta eram inesperadas. Sua filha me explicou que o porta-retratos continha a foto de sua mãe, que havia falecido há 10 anos, e que aquela era a praia na qual passeavam no início do namoro. Para homenagear a memória do meu amigo, esperei o pôr do sol para abrir a carta, sentado na mureta, como fazíamos diariamente:

“Querido companheiro sem nome, sinto muita falta da minha esposa, Cláudia. Ela foi o meu primeiro e único amor. Todos os dias a levo, da minha maneira, para ver o pôr do sol que tanto contribuiu com nossa história. Por ser um momento tão nosso, sempre achei uma traição não o honrar, então nunca conversei com você. Pelo nervosismo dos meus filhos, percebi que não tenho muitos dias, então, preciso te dizer algo: obrigado pela presença acalentadora durante esses anos, você apoiou um velho senhor sem pedir uma palavra em troca. Sem saber, tornou meus dias menos solitários”.

Virando Páginas

Luara Batalha
Baiana com mais de 10 livros publicados em sua área, Luara Batalha é engenheira civil, mestre em engenharia de estruturas e atua com ensino e pesquisa. Sempre dedicou parte do seu tempo a expressões artísticas e desde cedo se descobriu uma leitora voraz, mergulhando em obras de diversos estilos. Apaixonada pelas letras, teve seu conto “Invasão de território” publicado na antologia Soteropolitanos e atualmente trabalha no seu primeiro romance.

Seja integrante de nossos grupos de WhatsApp!
Falabarreiras Notícias 01
Falabarreiras Notícias 02
Falabarreiras Notícias 20
Falabarreiras Notícias 42
Falabarreiras Empregos 01
Falabarreiras Empregos 15
Falabarreiras Empregos 16
Falabarreiras Empregos 17