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Palavreado Barreirense

Velho Baiano, Verbo Boêmio

Palavreado Barreirense, coluna semanal do poeta Clerbet Luiz…

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Palavreado Barreirense

Eu ia lhe chamar
enquanto corria
a barca Yemanjá.

E por que não me chamou?

Fica só me prometendo…
Quem vive de promessa
é santo.

Eu juro:
Eu ia lhe chamar
enquanto corria a barca.

E porque não me chamou,
bicho ruim?
Você é unha de fome
até pra me informar
as barcas que passam.

A barca correu
e você demorou
chegar,
que nem deu tempo
de lhe avisar.

Mentiiiira que você não me chamou!
Ficou só na vontade.
Quem quer, faz;
não manda fazer.

Inda fica aí
com essa cara mais limpa,
feito roupa quarando
no varal de arame farpado.

“Eu ia lhe chamar..”
Ia nada.
Cê só quer venha-a-nós.
Vosso reino, nada.

É parecido com isso
esse promessa
de “eu ia lhe chamar”.

Ia, mas não chamou.

Que verbo mais “miserável”
é esse verbo ir.

Vou rasgar esse verbo:

Eu vou, tu vais, ele vai.
Eu fui, tu foste, ele foi.
Eu fora, tu foras.
Eu irei, tu irás.
Eu ia lhe chamar.

Depois do eu, tu, ele,
nós, vós, eles,
só tem terminação diferente,
da raiz até à ponta da língua,
só pra esse infeliz verbo “ir”.

Foi tudo culpa desse verbo
terrivelmente esquisito
que eu não vi a barca correr.

Eu ia lhe chamar.
Por que não me chamou?

II

Abra o porto
e a janela do poeta
e vem ver o verso nascer.

O clarão da bacia
de alumínio
da lavanderia me encandeia,
que nem deu tempo
d’eu ver a barca Nina.

A luz do sol
me cega,
que nem deu pr’eu
enxergar a Maceió.

Eu sou um pássaro
Martim-pescador
que vive avoando
e dando rasante
nos dias de anteontens,
pra trazer esses dias
pra cá pra esse horizonte.

Vivo avoando
sem nunca mais parar.
Ai, aí,
aí, ai, saudade
não venha me matar.

Preta, preta, pretinha,
aperta o peito
que a saudade tá prontinha,

como um nó
numa trouxa
de roupa
amarrando um amor roxo.

Me ponho de bruços
no cais
e um soluço entalado
na garganta
de quando eu era rapaz.

Preta, preta, pretinha,
se essa rua do cais
fosse minha,
eu não mandava asfaltar.

Preta, preta, pretinha,
como é que traz
o tempo que ficou lá atrás?

Preta, preta, pretinha.
Eu debruçado de bruços
nesse cais,
e um soluço entalado
feito espinha de peixe
na garganta.

A garganta que
nem cantar mais canta
‘Preta, preta, pretinha”.
Aperta o peito
que a saudade tá prontinha
que nem o nó
dado na trouxa de roupa
da lavandeira Lurdinha.

Mais um nó.
E outro nó.
Pra que tanto nó cego
dentro de nós,
você que me pergunta
e eu que nego
ver a barca Maceió.

E a lavadeira Isaurina
com o sol na bacia de alumínio
que encadeia as vistas
e não deixa ver
a barca Nina.

Como é que faço
pra inda ser rapaz
viajando no vapor
Venceslau?

III

Você chegou agora
nesse presente,
e nem pressente
que atrás vem gente.

Agora é que você
vem me dizer:
pra frente, nós vamos.
Pra frente é que
se anda.

E essa varanda
do lado da barca
“Deuza do rio Grande”,
ali adonde
uns tresontonte
ficamos ‘intristidos”
olhando o tempo passar.

III

Eu já fui igual
os novos baianos:
vasta cabeleireira;
voz bonita de Moraes Moreira.

Eu já fui igual
Sá & Guarabira
(Guarabira, que nasceu na Barra,
e foi morar em Lapa).

Hoje, tô só as tiras
da corda vocal
Meu sertão não virou mar
com medo que algum dia
o mar também vire sertão.

Só se for no coração.
Só se for na intenção,
como essa promessa
minha de
“Eu ia lhe chamar
enquanto corria a barca.

Eu fui igual
fulano e beltrano;
com cabelo longo
de cigano.

Hoje, tô ficando
com voz de besouro.
Tô ficando
velho e broco:
dor nas juntas e joelho,
igual Paulinho Boca
de Cantor;
voz fonhenta
igual Moraes Moreira
depois dos setenta.

Tô ficando um velho
cheio de enganos,
sem poder cantar
os novos baianos
nesse cais de Ibotirama.

Clerbet Luiz

Palavreado Barreirense

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