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Palavreado Barreirense

Tonho do Picolé revisitado

Clerbet Luiz retrata em versos um dos maiores personagens do folclore barreirense…

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Palavreado Barreirense
Tonho do Picolé
Tonho do Picolé, vendedor ambulante de Barreiras, Oeste da Bahia

Tonho andando agora sem pressa,
é como se o “Picolé” do seu nome
não fosse mais derreter.
Por isso Tonho não se avexa
como quando era menino,
quando esse mesmo sol de hoje
parecia estar mais a pino.

Tonho agora, sem os picolés,
ainda se parece com o antigo menino:
a mesma leveza de isopor;
o mesmo frescor da pele,
labutando agora com latas de alumínio;
a mesma expressão no rosto;
a careta igual de quem come tamarindo
e, apesar do azedo da fruta e da vida,
a sua capacidade de continuar sorrindo.

O mesmo tamarindo que porventura
tenha lhe deixado a vida azeda,
é o mesmo que fizera o seu primeiro picolé,
e o mesmo igual agora em sua lembrança
que o deixa sereno, tranquilo qual seda.

Segue Tonho sem muita conversa
(ele não dá bom dia a cavalo),
e já sem a antiga pressa,
não passa na lixa do cais
a crespa mão em calos.

Vem de Barreirinhas ao centro,
tranquilo e sereno,
sem aparente grilos por dentro
(por enquanto, por hora),
sem se abalar com o estouro
das dinamites da noite.

A tarde arde por fora e por dentro
dos barreirenses.
Ele solitário ao sol.
Raios ultravioletas violentando
cabeça, tronco e membros de mil,
e ele na frescura dos picolés de outrora
e agora em lata fria de cerveja
entrega de bandeja sua imagem
às margens da cidade Barreiras.

“Tá pensando que babado é bico?”
E babado não é mesmo bico,
como a lida de Tonho não é de circo,
apesar do peso que carrega;
sem pesar é que canta sem pranto
“quero que vá tudo pro inferno”
e “amada amante” do rei Roberto.

Desde menino entre tamarindos e umbus,
se lambuzando de buritis;
caçando fogo-pagô e juriti;
admirando-se com as andorinhas
e bem-te-vis do rio Grande.
sem querer e sem receber migalhas;
sobrevivendo de picolés de groselha
(que todo dia Zélia chupava).

Desde então, caminha Tonho,
cidadão barreirense
fora das redes sociais,
como as margens do cais;
segue Antônio, um homem da classe operária,
sem carteira de trabalho.
Antônio, autônomo e dono de sua vida;
foi com autonomia
que criou o bordão “Tu viu, Lia!”

Quem é essa Lia que você via
e a gente não via?
na curva do cais, na reta do gerais
na miragem do estio,
no deserto de Tonho?

Sua retina lhe dando a sua Lia,
oásis no meio da miragem
da retina do homem-menino:
“Tu viu,Lia?!!!”
Onde se escondeu a sua Lia?
Embarcou na barca Maceió?

Vestia chita ou cambraia?
Tecida na seda da linha,
fiada no fuso de Tonho confuso,
com sede de fêmea,
sua musa Lia não está no museu barreirense?

“Tu viu, Lia!!”
Todos queremos vê-la, Tonho
Era bela, era recatada?
Era doméstica como Angélica,
como Jéssica, Mércia, Marcela
empoderada na retina do delírio de Tonho,
como quem pensa no Palácio do Planalto,
No Palácio de sua planície,
na superfície plana do paralelepípedo,
Tonho do Picolé põe os pés no chão.

Clerbet Luiz

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