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Palavreado Barreirense

Prosa para Leleu

O poeta barreirense Clerbet Luiz, nos leva à imersão da riqueza do vocabulário de Leleu, o chapeiro irreverente que fazia a felicidade de todos…

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Prosa para Leleu

Imagem destaque: Leuleu e seu trailer | Foto: Arquivo familiar

I

Espátula raspando
o resto da chapa;
uma raspa do papo
que o chapeiro
batia com um rapaz
que balança as pernas
no cais,
não se limpa
com o guardanapo
e ainda sobra na
ponta da sua língua.

Na ponta da sua língua
nenhuma palavra
fica esquecida
como se alguém dissesse:
“Viche! A palavra tá na ponta
de minha língua”,
sem, no entanto,
(essa pessoa) se lembrar
do nome da palavra.

Nenhuma marca,
nenhuma mácula
grudada como o grude
de chapa de sanduíche
deixara Leleu em sua alma,
que seja preciso
raspar com espátula.

A prosa escorre
como a maionese
saindo do tubo,
e Leleu,
nem amnésia,
discorre sobre
fulano, beltrano,
sicrano, tudo.

Leleu, sem sonho
ou delírio,
não escorrega no quiabo
nem viaja na maionese,
nem desliza a memória
na amnésia;
não esquece dos
mínimos detalhes,
nem do atalho
que encurta seu caminho
entre seu trailer
e o trailer vizinho, de Menininho.

Fala agora sobre a cena
de sangue num bar
enquanto espreme
o tubo de quetichup
no sanduíche.
“Viche! Que vermelhidão
é essa no meu sanduíche!’.

Ah vida prensada
entre a chapa e a
a esperança!
“Quem dera
eu ainda fosse menino!”,
diz para si o homem
do humor fino.

O ícone irônico,
com sua sílaba
aguda e tônica,
versa sua conversa
em prosa crônica.

Ele é um símbolo barreirense,
como o sinal do sino,
o brasão e o hino
são os outros símbolos
barreirenses
que estão
na figura de Nezinho.

O ícone da alegria
irônica barreirense
está na figura
de Leleu.

II

Quem é esse
que não joga
palavras ao vento?
esse que não doura pílulas;
que olha tudo em volta
sem dilatar as pupilas;
esse que aumenta
mas não inventa.

Esse que tem a sílaba
e não a lábia,
o lábaro que ostenta
a Barreiras estrelada
e varonil;
a bandeira,
o sotaque, o acento
e a entonação
da linguagem barreirense;

esse que aguenta
e preserva o barreirês,
em meio às línguas
sulista, cearense
e etcetera..
é, na certa,
o símbolo da ironia
alegre barreirense.

III

Quem é esse Leleu,
que não varre a poeira
pra debaixo do tapete;
esse pra quem
não se tira o boné,
para quem tiro o chapéu,

e não se posa de topete;
esse que não tapa
o sol com a peneira;
esse que, sem sombra de dúvida,
descortina o véu
de poeira
que encobre o lixão
e a degradação do rio Grande;
descortina esse véu
com sua ironia
espalhada em esquinas,
ruas e feiras.

Quem é esse Leleu
que não dialoga ao léu;
que, sem sonho nem delírio,
não viaja na maionese;
nem desliza a memória
na amnésia;
esse que conta causos
de Lírio
Coimbra e Zé de Hermes,
ao sol claro e sem penumbra;

esse que traz na epiderme
a tatuagem
que marca os caracteres
barreirenses,
com suas caretas,
gestos de mágoas
ou malaguetas;

esse que não enfeita
com confetes o mal feito;
que, às vezes, alfineta
os Netos de Momo,
e que, no fundo,
somos o que sai
da ponta de sua caneta,
ou melhor, de sua
crítica bem feita,
que vem do órgão humano
que articula o alfabeto,
forma os fonemas
e a fala,
sem cinema, circo ou coreto.

Quem é esse que estala
a língua e lábios
e faz um muxoxo,
sem fuxico,
e, com raiva,
não fica com o rosto roxo,
e expressa suas contrariedades
dizendo: “vote”.

Mas, ele, que tem
a faca e o queijo à mão,
pensa agora mais no sim
do que no não.
“Quando eu penso que não,
olha eu aqui com a razão”.



Clerbet Luiz

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