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Precipitações

Poema de Clerbet Luiz em homenagem aos 130 anos de emancipação política de Barreiras…

Publicado

em

Barreiras 130 Anos

Imagem destaque: Por do Sol na rua Professora Guiomar Porto, ao fundo a Igreja (católica) Matriz São João Batista, no Centro de Barreiras | Foto: Michele Sell

I

Posso tirar
meu cavalo da chuva,
dona chuva?

Posso,
neste mês de novembro,
num piscar de olho
de relâmpago
(que nem dá tempo
pra tirar uma foto),

posso tirar
meu cavalo da chuva
e apagar minhas esperanças
de que venhas?

Posso secar
minha verde espectativa
como as asas
dessa esperança,
parente do grilo
e do gafanhoto,
presas,
por um descuido meu,
na porta que fechei
quando me cansei
de te esperar?

Esse inseto verde
que entrou
em nossa residência
repentinamente,
na surdina,
e se escondeu
atrás da cortina,
tendo captado

com suas antenas
um perigo iminente
diante do calor
de um corpo estranho
que se aproxima,
ouvindo os passos
de um predador
humano.

Posso, assim,
secar essa outra
esperança
(frágil agora
como esse inseto
de asas presas
entre o portal
e a dobradiça),
após olhar pro alto
e ver o céu azul
sem nenhuma,
ou raras, nuvens?

Posso perder
minhas esperanças
de que caias,
quando encaro de novo,
distraidamente,
aquele inseto,
imobilizado
na dobradiça,
nesta tarde
de feriado e preguiça?

Posso, neste dia
em que se comemora
a Proclamação da República,
proclamar publicamente
a minha desesperança
e tirar
meu cavalo da chuva?

ante essa demora
da sua vinda,
em pleno equinócio
do outono,
avesso da primavera,
com os raios ultravioletas
incidindo
sobre nossos ombros,
nesta tarde
na cidade de Barreiras,
Oeste da Bahia?

Posso secar
minha verde espectativa
como a seca
poesia de Patativa?

Posso te dizer:
agora é tarde,
mas Ignez é viva?

Posso, então,
diante desse céu limpo,
me precipitar
e apressar
dizendo que você não vem?

II

Quem disse!
Jamais!
Necas de nunca!

Vou deixar
meu cavalo
amarrado
no lugar
que amarrei
meu jegue.

Tomara que chegues
de surpresa,
como beija-flor
na varanda.

Quando eu penso
que não,
o homem
do campo pensa
que sim.

Quando
eu fecho a porta,
e penso que não,
o homem
da horta
diz:
abre que ela vem.

E sendo assim
inevitável
a nossa esperança,
eu volto atrás
e te peço:

venha
que eu te saúdo,
como um menino pedinte,
mendigo pidão,
com olho graúdo
espiando
um pingo miúdo,
que não lhe dão.

Venha que eu te saúdo
saindo da casa
da abelha rainha
e da princesa saúva.

Venha chover,
dona chuva,
que já tenho lenha
guardada em casa,
como formiga saúva
que salva,
prevenidamente,
as folhas
quando o tempo turva
para a estação chuvosa.

Venha, chuva,
inverne em nós
até ficarmos hibernados
embaixo dos lençóis.

Inverne
quase como
a um bêbado
que inverna
sem ter nuvem.

Venha, mulher chuva,
não me deixe,
que eu não
te deixo viúva.

Chuva, venha.
Se vem chover
ao som de Lupicínio,
já tenho lenha
pra nossa
noite de núpcias.

Clerbet Luiz

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