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Palavreado Barreirense

Espiando o rio Grande

Poema de estreia de Clerbet Luiz na Coluna Palavreado do Oeste, que a partir de agora será publicada todas as quintas-feiras…

Publicado

em

Palavreado Barreirense
Espiando o rio Grande
Foto: Juju Barcelona Brasil

I

Te espio
por detrás
da forquilha
de uma árvore

como um menino antigo,
com uma baladeira,
mirando uma ave.

Te espio
agora, rio Grande,
despido de flora,
como um amante
que atira
a flecha em seu cupido;

como um amante
que tira as vestes
e o vestido
da aniversariante.

Te espio como antes,
agora e deveras depois,
com seu porto poluído
de casca de arroz.

Te comemoro
antecipadamente
com olhar novo,
como Ignez
trazendo histórias
desse velho oeste
para seu povo;

como Ignez,
contando
verdade em prosa
e não Era uma vez…,
põe na chocadeira
o ovo indez.

Te comemoro
como noivos
recepcionados
com chuva de arroz,

Te comemoro
da nascente até a foz;
na saúde e na doença;
na enchente ou
na vazante de
lavadeiras e anzóis;
sem o pescador Totonho,
João Envu ou Queiroz.

Te comemoro
agora nesse depois,
como Geraldão
vibrando seus gols.

Te comemoro
sem palavras,
sem saber o porquê.
Te comemoro,
quando muitos
já te choram.

Te comemoro
sem bater palmas;
sem k-suc;
só com o sorriso de Delsuc;
sem balões
nem pirulito;
só a presença de espírito
de Nicanor;
te comemoro sem canoas
e sem as barcas
de Zé Theodoro.

Te comemoro sem refri
e sem reutilizar
vasilha de refil.

Te comemoro
do jeito que for,
mesmo já tendo
o seu bolo
dado bolor.

II

Te espio
quando crio;

te espio
olhando seu vazio.

Quando crio,
sempre olho
pra cara do vazio.

Quando copio,
olho prum vaso de refil.

Não te espio
como quem
reutiliza o refil.

Te espio
como quem sente
na barriga um frio.

Quando crio,
entro no cio.

Quando copio,
caio num vazio.

Quando te recrio,
entro no recreio
de um re-cio.

Quando te recrio,
tenho espasmos
nos músculos da mão,
na palma.
Recrio-te
em orgasmo
e não espero
banhar-me
no deleite de quem
bate palmas.

Te recrio
na festa de sua idade;
na festa de aniversário
de suas cidades
Barreiras e Barra
quando cantam:
“Parabéns pra você!”

III

Quando te recrio
não é como encher
de novo um vaso de refil.

Quando te recrio
não é como
reutilizar o estio.

Te comemoro
nesta data repetida.

Te comemoro
não como Moro
que comemora uma prisão.

Te comemoro
sem represa,
e sem prisão,
mesmo sabendo
que o lesam os pivôs
mais que os verões.

Te comemoro,
sem fauna ou flora,
nesta data e até a anterior,
quando não tinha pivôs;
até o mil riacho-avô.

Te comemoro
sem hemodiálise nem soro;
sem transfusão de um
córrego
nas veias do rio dos Cachorros;

sem transfusão de mangue
pras veias
de quem te dá o sangue
de noite e de dia;
sem a transposição do mangue
da poesia
em seu sangue.

IV

Mesmo sabendo
que na outra margem
onde está aquele
edifício
não existe um atirador
de elite
na mira
de quem agora delira
admirando na espia
esse rio,

como aquele
que alvejou
Bob Kennedy;

mesmo sabendo
que da mata ciliar
me espia duendes
e anônimos gnomos,

mesmo que
não seja desse
ângulo da forquilha;

mesmo sentado
ao cais, mirando seu caos;
mesmo que o poema termine
onde já não haja ponto e vírgula.

Clerbet Luiz

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