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Palavreado Barreirense

Badu começou assim

Mais uma obra prima do grande poeta barreirense Clerbet Luiz. Desta vez ele nos leva às doces memórias da infância de um povo saudoso da convivência com as figuras ilustres do cotidiano barreirense…

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Palavreado Barreirense
Badu começou assim
Badu, figura folclórica de Barreiras/BA | Foto: Kinkão

Guardando papéis
no bolso.
Um bilhete?
uma mensagem
para outra margem
além da sua realidade?

Mensagem guardada
em garrafa que ele lança
ao rio Grande
e o rio Grande ao São Francisco
e esse, ao mar?

Mensagem de um náufrago
em terra
desterrado do seu próprio solo,
exilado na ilha de sua solidão?
Por que guardavas esses papéis, moço?
Senha para adentrar
em si mesmo?

Abrete-te, Sésamo!
abracadabra, Badu!
bode expiatório
de suas culpas
que pesam no ombro
mais que um saco?

Comprando fiado
e querendo o troco;
mísero, liso e leso
e nem talvez louco,
terá sido dele essa frase:
“Acertar na quina não acerto;
só acerto a cara
na esquina do Neto?”

Ele que começou assim:
interpretando os papéis
que guardava;
foi fundo e tão fundo
que os olhos ficaram
mais fundos ainda.

E já não se via sua mata ciliar
em volta do supercílio,
nem lhe sobrava sobrancelhas,
mas muitos o viram
andando em círculo,
puxado pra dentro
do redemoinho de si mesmo.

E na boca banguela,
como as Três Bocas,
como a baía de Guanabara,
um silêncio ele guardava
como guardava o lenço
depois de limpar
raras palavras.

Badu começou assim
e foi tão fundo
no precipício do seu abismo,
no prepúcio fechado
do seu silêncio,
como alguém que se arrisca
da Serra do Mimo
ou se lança da Cachoeira
do Acaba-Vida.

Aprofundou tanto em si
Como quem vive
Em poço ou cratera,
Por exemplo, o povo de Barreiras
Plantada entre serras.

Badu foi tão fundo
Que quase invisível se tornou,
Como um faxineiro em seu ofício,
Como um gari varrendo de si o seu juízo,
Que muitos dizem louco varrido.

Badu começou assim:
movendo papéis
como quem não move
uma palha;
fazendo do saco seu peso,
fazendo o seu próprio preço,
que mais tarde se soube
caros, bilionários
os pobres papéis do começo;

sem receitas, mensagens, bilhetes.
Quem riu por ele riu primeiro
e ele, melhor que muitos,
riu por último e eterno.

Ele começou assim
e a poesia chegando ao fim,
saindo de fininho
sem deixar rastro
ou rabisco de lápis;
sem deixar em branco o papel
do qual poderia se apossar Badu.

Clerbet Luiz

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